Para o que der e vier


A amizade é o ingrediente mais importante para uma vida feliz,
professava Epicuro de Samos, filósofo grego, o mesmo que considerava a prudência mãe de todas as virtudes, ainda mais importante do que a própria filosofia. 
O homem que classificou os desejos em naturais e frívolos, acreditava que a felicidade era possível e desejável através da tranquilidade do corpo, alcançável com bom sono e nutrição adequada. Classificando a riqueza e a glória como prazeres artificiais e a imortalidade como um desejo irrealizável e,
por isso mesmo, também ele frívolo, Epicuro dizia que não é a morte que é dolorosa, mas a sua antecipação, sendo feliz aquele que alcança a libertação da dor e do medo.

Talvez os amigos nem sempre possuam a capacidade de nos libertar de dor, 
mas certamente têm um papel fundamental no que respeita ao medo, nomeadamente ao medo da solidão. 
Em caso de separação ou viuvez, é normal que os
mais próximos se organizem numa espécie de congregação tácita para marcar presença e fazer companhia a quem precisa.
 São gestos espontâneos, porém conscientes. 
Quando um amigo sofre a dor profunda de uma perda irremediável, é preciso accionar os mecanismos necessários para ajudar a atenuar a dor, sob a forma de atenção, carinho e companhia.

Ora isto é também uma forma de amor. Amar os nossos amigos é uma prática saudável, 
prudente e frutífera. A amizade tem encantos imbatíveis.
É uma forma sublime de amor, mas sem preço nem prazo de validade. Aceitamos nos nossos amigos idiossincrasias que nunca admitiríamos ao nosso amor e não lhes cobramos falhas e ausências com a mesma ferocidade. Estamos lá, para o que der e vier, aconteça o que acontecer, tal como no amor puro e incondicional. Só que no amor procuramos e reclamamos uma troca justa, ou pelo menos equitativa, enquanto que na amizade, que não sofre da idealização, aceitamos os defeitos sem que isso sirva para o crucificar.

Os casais mais felizes que conheço e com relações mais duradouras são, também, grandes amigos.
Há em todos uma linha subjacente de entendimento tácito e
de tolerância treinada para aceitar os defeitos do outro, ao mesmo tempo que a empatia, enquanto capacidade de entender o que o outro quer e deseja, actua em quase todos os momentos.
Essa capacidade de pensar no bem-estar do outro e de conseguir perceber o que o faz feliz ou o que o entristece parece muito mais fácil de alcançar em relação
aos amigos do que quando se trata do nosso mais que tudo. 
Porquê?
Porque não paira sobre a amizade aquele véu chamado desejo físico, aquele demónio chamado ciúme, aquela grilheta chamada sentido de posse e aquele fantasma chamado medo. Nunca temos medo de perder os nossos amigos porque sabemos que eles estão lá para sempre e que só a morte os poderá levar.
A linha ténue entre o amor e amizade pode ser uma dádiva, se for gerida com prudência, a sábia mãe de todas as virtudes.

2 comentários:

  1. ADORO! *
    o teu blog é sem dúvida um dos melhores (:

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  2. Adorei as gravatas para os cães andarem todos "pipis"...
    Deviam fazer para gatos, que eu não tenho cão. Assim, quando recebesse visitas eles estavam impecáveis!
    Se bem que os gatos~são como eu, e eram capazes de arrancar aquilo aos pulos pela casa fora...

    xoxo
    Lux

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