Hora do Conto- Escorregar não é cair

A língua inglesa contém expressões intraduzíveis e de grande sabedoria, como por exemplo to fall in love’. Como podemos traduzir com fidelidade e exactidão tal sabedoria? Sempre mais fatalistas, o máximo que conseguimos é dizer que fulana está caidinha por sicrano. É a voz passiva a ilustrar o papel da vítima. Também usamos o verbo apanhar na mesma voz, ‘ai, ai, estás a ficar apanhada por 
 ele’. Ainda assim prefiro estar apanhada do que caidinha, porque ao menos ainda não fui ao tapete, ainda me encontro em condições de me poder mexer, ou seja, de poder escolher se quero mesmo deixar-me apanhar ou se mando evacuar os meus soldadinhos do terreno e prossigo com a minha vida para outras bandas. A expressão ‘evacuar os soldadinhos’ revela-se um conceito fundamental, pois nenhuma relação se fabrica de forma instantânea, tipo pudim Alsa, e por isso a ideia de ir deixando soldadinhos no terreno é boa, mas a de os poder evacuar de um momento para o outro em situação de contingência ainda é melhor.



Voltemos então ao maravilhoso acto de falling in love. Gosto de pensar que, uma vez que vou cair, que caia devagar e com toda a graça como Alice quando caiu no poço ou a Mary Poppins quando aterrou no telhado de casa da família Banks. Tal como numa história de amor, ela chegou e partiu com o vento, mas mudou para sempre a vida daquelas pessoas, além de possuir o misterioso dom de arrumar tudo sem levantar um dedo.

A queda de Alice pelo poço é retratada na versão Disney como uma espécie de flutuação, semelhante à que eu sentia quando sonhava que voava quando era miúda.
Assim, ir caindo por amor pode ser bem mais interessante do que uma pessoa atirar-se de cabeça para uma piscina sem verificar se está cheia ou vazia. Cair por amor não soa tão bem em português como em inglês, mas talvez valha a pena ir usando a expressão até que esta se entranhe naturalmente no léxico nacional, tão dado a falar, a escrever e a cantar sobre as questões amorosas. É que o bom de ir caindo é mesmo isso: trata-se de um processo de progressão cuja velocidade pode ser mais ou menos regulada, tipo reóstato do candeeiro da mesa de cabeceira. Cair sim, mas com estilo e sem aterragens mal calculadas que provocam pés torcidos e asas partidas. E claro, sem esquecer nem o pára-quedas nem o walkie talkie para poder chamar o helicóptero se for preciso passar ao plano de evacuação.

Quando somos mais novos e pensamos que a vida acaba aos 30 e depois aos 40, temos mais tendência para nos apaixonarmos repentinamente: há um raio que nos fulmina e, de um instante para o outro, aquele desconhecido ganha um green card de acesso directo ao nosso coração. Mas o tempo vai-nos ensinando pacientemente que nem sempre o raio resulta: o amor à primeira vista é tão falível como o diagnóstico de um médico quando aperta a mão ao doente.
Na verdade, todos queremos viver essa vertigem de ir caindo e o ideal é que essa queda seja gradual, para que possa demorar anos a concretizar-se.
 E tem o resultado prático do outro saber que em qualquer momento chega o helicóptero para nos salvar, se for caso disso.


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