Cada noite, cada dia

Há pouco tempo um grande amigo queixava-se que as mulheres só são interessantes durante a fase da sedução. Uma vez instaladas, arrumadas na vida, casadas ou acasaladas, entregam-se à inércia, ao sofá, às lides domésticas, à tensão pré-menstrual, aos pequenos dramas do emprego, aos caprichos dos filhos e à vidinha em geral, esquecendo-se de tudo o resto.
Tive vontade de lhe responder: então e os homens? Uma vez instalados, não fazem o mesmo? Não deixam que a barriga se expanda, não se tornam obcecados com o futebol e com o comando da televisão, não passam o tempo na net e fora desta a olhar para as pernas e para os rabos das outras?
Era a resposta mais óbvia, mas também aquela que não me levava a lado nenhum. E eu gosto sempre de chegar a um lugar qualquer.


Um dos truques que a vida me ensinou nas relações amorosas é o de viver cada dia como se fosse o primeiro e cada noite como se fosse a última. Mesmo quando estou cansada, mesmo quando a rotina estende os seus tentáculos asfixiantes e cancerígenos, mesmo quando ele se esquece de passar o lavatório por água depois de ter feito a barba, mesmo quando a única coisa que me apetece é enterrar a cabeça num livro e viajar para um mundo onde só se ouvem os meus pensamentos.

Cada dia tem 24 horas, se dedicarmos uma hora ao nosso amor, podemos operar milagres. Às vezes basta um sorriso, uma piada, um gesto de cumplicidade, uma mensagem bem disposta, um e-mail curto mas sincero, um mimo, uma surpresa e tudo se transforma. Não é assim tão difícil quanto parece: trata-se mais de uma questão de estilo, de atitude. Há muitas mulheres que cruzam obstinadamente os braços, queixando-se da falta de iniciativa dos seus pares quando elas próprias não mexem um dedo para os agradar. E não é assim tão difícil agradar a um homem, sobretudo se já o conhecemos. Basta um bocadinho de imaginação misturada com bom senso.

Manter o charme e o espírito de sedução ao longo de uma relação é um full-time job sem remuneração à vista, mas que a longo prazo poderá dar os mais belos frutos. É como educar os filhos e cuidar dos nossos pais; já que faz parte da nossa natureza gregária, ao menos que seja feito com amor e com qualidade. Como professava uma campanha das Pousadas de Portugal: já que vai estar casado para toda a vida, faça de cada fim-de-semana uma lua-de-mel. Com a crise instalada viajar todos os fins-de-semana só é possível para as estrelas de cinema, mas o princípio pode ser seguido sem sair da própria cidade, ou, às vezes, sem arredar o pé de casa. É tudo uma questão de espírito e de onda. E o espírito é como tudo, também se educa, também se treina.

Quando somos pequenos e nos deitam aquele veneno na sopa que diz ‘e depois casaram, tiveram muitos filhos e foram muito felizes’, esqueceram-se de nos explicar que a palavra que deveria aparecer a seguir era ‘início’ e não ‘fim’. Depois da casa montada, da festa rija, do dia perfeito e da viagem de sonho, depois dos presentes de casamento arrumados no armário, é preciso arregaçar as mangas e investir no dia-a-_-dia e viver cada manhã como a primeira em que acordamos com a pessoa certa ao nosso lado e cada noite como se fosse a primeira em que a temos só para nós.

Utopia ou não, mais vale investir no que é bom e deixar o comando de lado e o computador desligado e viver plenamente o outro, como se fosse a última vez.
 
 




8 comentários:

  1. Amei! Parabéns, o texto está, como todos os outros, fantástico! Não poderia concordar mais, palavras sábias :) Beijo

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  2. Nem mais!
    O texto está perfeito. Escreves mesmo bem.

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  3. Sim, concordo contigo...
    Depois de termos uma pessoa como um "dado adquirido", por norma, ambas as partes desleixam-se...
    Só que na vida, não existem "dados adquiridos"...
    Uma relação requer um esforço muito grande, para que continue a existir sedução de ambas as partes ao fim de algum tempo!
    Nem sempre é fácil, mas um esforço, compensa... e muito!

    xoxo
    Lux

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  4. Adorei!
    Acho que faz muito sentido e concordo com cada palavra :)

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  5. Eu concordo, tens toda a razão e teria dado a mesma resposta! Mas a conclusao que tiraste é a acertada!

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